“The Lover’s Dictionary” tem um formato
diferente da maioria dos livros, um formato de dicionário, como o próprio nome
informa. Em todas as páginas temos uma palavra e um trecho que faz referência
ao seu significado. Todos os trechos do livro juntos, de forma não linear – já que
eles estão organizados em ordem alfabética – formam a história do
relacionamento do casal protagonista em questão.
Casal protagonista que não tem nome e
não tem características muito específicas, dando uma grande liberdade para o leitor completar e é bem fácil se ver nas linhas do texto. Os trechos são em sua maioria bem
breves, mas conseguem delinear o tom e os acontecimentos do relacionamento de
uma forma muito honesta.
O autor aborda acontecimentos grandes e
acontecimentos pequenos, aqueles que têm mais e menos relevância dentro de um
relacionamento, entretanto, no fim, acabam moldando a essência do casal e o que
eles representam. Levithan apresenta um conjunto de entradas de representa o
amor e um relacionamento de uma forma muito íntegra, interessante e nada clichê. É um livro que por mais curto e rápido que seja, é um livro completo. E por mais que tenha uma linguagem simples, é um livro que trata sobre relacionamentos e todo mundo sabe que isso nunca é simples. Esse paradoxo é muito bem trabalhado pelo autor.
Eu resolvi reler esse livro porque estava em um momento difícil com outro livro. Sabe, quando o relacionamento está complicado, mas você não está pronta para simplesmente desistir porque você sente que o livro ainda tem potencial? Eu normalmente não desisto dos livros sem tentar tudo que eu posso, mas nesse caso eu precisava de um tempo longe para ver se depois eu volto com outros olhos.
Bem, o meu primeiro contato
com esse livro foi em setembro de 2013, e ele me conquistou muito na época. Eu
comecei a releitura consciente que o livro tinha conquistado uma Gabriele de
dezessete anos recém-feitos, estudante do terceiro ano do Ensino Médio, que
nunca tinha se apaixonado de verdade e nunca tinha tido a experiência de um
relacionamento de verdade. Ela tinha lido o livro, marcado várias coisas e
adorado.
A Gabriele que estava
se preparando para reler o livro, em dezembro de 2015, tem dezenove anos,
terminou o segundo ano da faculdade, já se apaixonou, já entrou em um
relacionamento e recentemente viu esse relacionamento terminando. Não é a mesma
pessoa, mas felizmente posso dizer que continuo adorando o livro.
Foi interessante
reencontrar a Gabriele de 2013 nas páginas do livro. Ela tinha deixado várias
marcas e foi interessante ver o que ela tinha considerado relevante na época e
perceber que não eram as mesmas passagens e páginas que eu estava considerando
relevante agora. Eu não tirei as minhas marcações de 2013, apenas adicionei
marcações de cor diferente. Eu não apaguei o que tinha sublinhado na época, mas
eu sublinhei novas coisas e resolvi conversar com a eu do passado respondendo
porque eu discordava de algumas coisas que ela tinha concordado antes,
escrevendo mensagens. Eu conversei comigo, conversei com o autor, conversei com todo mundo. E quero muito reler esse livro daqui uns anos e ver o que a Gabriele de dois mil e alguma coisa pensa sobre meus comentários, espero que ela responda também.
Eu tornei o livro tão
meu. É um livro que, agora, não posso mais emprestar a ninguém porque virou um
diário pessoal de como minha visão sobre relacionamentos e sobre relações
pessoais mudou em dois anos. Mas é interessante me colocar nas margens. É um
livro que agora, reflete meu crescimento como pessoa ao longo desses dois anos
turbulentos.
Releituras nos permitem
entrar em contato com nossos eus do passado e conversar com eles de formas
indiretas. A gente ouve o que eles tem a dizer, podemos responder, eles só não
podem responder de volta. O que eu pensava na
época e hoje penso diferente? Porque hoje eu penso diferente? O que mudou em
mim, já que o livro é exatamente o mesmo?
Acredito que nem todos os livros são
passiveis proporcionar momentos de autorreflexão assim, mas existem alguns na
história de todo leitor que merecem ser lidos de tempos em tempos. Talvez eu
passe a odiar um livro que um dia eu amei, mas eu quero saber o que mudou tanto
em mim que ocasionou uma mudança tão brusca assim. É algo positivo? Não?
David Levithan tem uma linguagem
simples, direta e consegue em pequenos trechos, dar vida a vários sentimentos
que existem em um relacionamento. O vocabulário dos trechos, no inglês é bem simples
e fácil de entender, mas as palavras escolhidas como títulos proporcionaram um
grande aumento no meu vocabulário (o que é o objetivo de todo dicionário,
não?). É um livro bem honesto sobre pessoas, relacionamentos e como tem altos e baixos e como nunca contamos as histórias em uma ordem muito correta.
Editora: Farra, Straus and Giroux | Páginas: 211 | ISBN: 9780374193683
(não tem edição em português)

que saudade de palavras, digo-lhe que começarei hoje a leitura deste
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