quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

The Lover's Dictionary, David Levithan (sobre releituras e crescimento)

“The Lover’s Dictionary” tem um formato diferente da maioria dos livros, um formato de dicionário, como o próprio nome informa. Em todas as páginas temos uma palavra e um trecho que faz referência ao seu significado. Todos os trechos do livro juntos, de forma não linear – já que eles estão organizados em ordem alfabética – formam a história do relacionamento do casal protagonista em questão.
Casal protagonista que não tem nome e não tem características muito específicas, dando uma grande liberdade para o leitor completar e é bem fácil se ver nas linhas do texto. Os trechos são em sua maioria bem breves, mas conseguem delinear o tom e os acontecimentos do relacionamento de uma forma muito honesta.
O autor aborda acontecimentos grandes e acontecimentos pequenos, aqueles que têm mais e menos relevância dentro de um relacionamento, entretanto, no fim, acabam moldando a essência do casal e o que eles representam. Levithan apresenta um conjunto de entradas de representa o amor e um relacionamento de uma forma muito íntegra, interessante e nada clichê. É um livro que por mais curto e rápido que seja, é um livro completo. E por mais que tenha uma linguagem simples, é um livro que trata sobre relacionamentos e todo mundo sabe que isso nunca é simples. Esse paradoxo é muito bem trabalhado pelo autor. 
Eu resolvi reler esse livro porque estava em um momento difícil com outro livro. Sabe, quando o relacionamento está complicado, mas você não está pronta para simplesmente desistir porque você sente que o livro ainda tem potencial? Eu normalmente não desisto dos livros sem tentar tudo que eu posso, mas nesse caso eu precisava de um tempo longe para ver se depois eu volto com outros olhos.
Bem, o meu primeiro contato com esse livro foi em setembro de 2013, e ele me conquistou muito na época. Eu comecei a releitura consciente que o livro tinha conquistado uma Gabriele de dezessete anos recém-feitos, estudante do terceiro ano do Ensino Médio, que nunca tinha se apaixonado de verdade e nunca tinha tido a experiência de um relacionamento de verdade. Ela tinha lido o livro, marcado várias coisas e adorado.
A Gabriele que estava se preparando para reler o livro, em dezembro de 2015, tem dezenove anos, terminou o segundo ano da faculdade, já se apaixonou, já entrou em um relacionamento e recentemente viu esse relacionamento terminando. Não é a mesma pessoa, mas felizmente posso dizer que continuo adorando o livro.
Foi interessante reencontrar a Gabriele de 2013 nas páginas do livro. Ela tinha deixado várias marcas e foi interessante ver o que ela tinha considerado relevante na época e perceber que não eram as mesmas passagens e páginas que eu estava considerando relevante agora. Eu não tirei as minhas marcações de 2013, apenas adicionei marcações de cor diferente. Eu não apaguei o que tinha sublinhado na época, mas eu sublinhei novas coisas e resolvi conversar com a eu do passado respondendo porque eu discordava de algumas coisas que ela tinha concordado antes, escrevendo mensagens. Eu conversei comigo, conversei com o autor, conversei com todo mundo. E quero muito reler esse livro daqui uns anos e ver o que a Gabriele de dois mil e alguma coisa pensa sobre meus comentários, espero que ela responda também. 
Eu tornei o livro tão meu. É um livro que, agora, não posso mais emprestar a ninguém porque virou um diário pessoal de como minha visão sobre relacionamentos e sobre relações pessoais mudou em dois anos. Mas é interessante me colocar nas margens. É um livro que agora, reflete meu crescimento como pessoa ao longo desses dois anos turbulentos.
Releituras nos permitem entrar em contato com nossos eus do passado e conversar com eles de formas indiretas. A gente ouve o que eles tem a dizer, podemos responder, eles só não podem responder de volta. O que eu pensava na época e hoje penso diferente? Porque hoje eu penso diferente? O que mudou em mim, já que o livro é exatamente o mesmo?
Acredito que nem todos os livros são passiveis proporcionar momentos de autorreflexão assim, mas existem alguns na história de todo leitor que merecem ser lidos de tempos em tempos. Talvez eu passe a odiar um livro que um dia eu amei, mas eu quero saber o que mudou tanto em mim que ocasionou uma mudança tão brusca assim. É algo positivo? Não?
David Levithan tem uma linguagem simples, direta e consegue em pequenos trechos, dar vida a vários sentimentos que existem em um relacionamento. O vocabulário dos trechos, no inglês é bem simples e fácil de entender, mas as palavras escolhidas como títulos proporcionaram um grande aumento no meu vocabulário (o que é o objetivo de todo dicionário, não?). É um livro bem honesto sobre pessoas, relacionamentos e como tem altos e baixos e como nunca contamos as histórias em uma ordem muito correta. 
Editora: Farra, Straus and Giroux | Páginas: 211 | ISBN: 9780374193683
(não tem edição em português) 

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