quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre jornadas de amadurecimento e autoconhecimento (Filme "Encalhados")

Quando uma jovem mulher irresponsável e imatura (Keira Knightley) recebe um pedido de casamento de seu namorado, ela entra em crise. A primeira ideia é fingir que precisa fazer um retiro em busca de auto conhecimento profissional, mas de fato ela se esconde na casa da sua nova melhor amiga, a adolescente Annika (Chloe Grace Moretz). (trailer)
Faz muito tempo que eu não me sento para escrever nada que não tenha fins acadêmicos e que nenhum professor vá validar e criticar a minha argumentação, minha escolha de fontes e minha forma de desenvolver ideias. Acredito que a quantidade de vezes que eu precisei sentar e escrever com esses fins, foi o grande motivo que me afastou das resenhas e do blog e da escrita em geral. Contudo, em um dia incomum, eu resolvi fazer uma maratona de filmes e é isso que me trouxe aqui de novo.
Quem me conhece sabe que eu não tenho o costume de assistir filmes, eu não gosto tanto como a maioria das pessoas. Mas eu resolvi assistir alguns e como eu normalmente gosto dos filmes que a Keira Knightley aparece, acabei assistindo a comédia romântica Encalhados (Laggies, 2014)
Eu nunca chego em comédias românticas com muitas expectativas, sendo uma pessoa que já não gosta muito de filmes, esse gênero é ainda mais difícil de me agradar. Contudo, algo nesse filme fez com que eu pela primeira vez em meses abrisse um documento do word e escrevesse, então vamos direto ao ponto.
O filme vai contar a história de Megan, uma mulher com graduação e mestrado em terapia de famílias e casais, mas que acabou se sentindo uma farsa ao trabalhar com pessoas reais ao levar a teoria para prática. Então Megan se vê nos seus vinte e poucos anos, sem emprego, em um relacionamento confortável com seu namorado do ensino médio e com o seu mesmo grupo de amigos da época.
Ela sabe que precisa se encontrar e buscar uma orientação, mas ela se vê empacada, sem conseguir ver caminhos possíveis para seguir. Durante o casamento de uma de suas melhores amigas da época do ensino médio, seu namorado acaba propondo o casamento e é quando ela entra em pânico e sai no meio da festa para dar uma volta.
É nesse grupo de amigas, que depois de tanto tempo é ainda tão unido, que Meg tem dificuldades de perceber que não se sente mais parte. Que não se sente mais pertencente, que ela não está mais no mesmo ritmo e no mesmo momento de vida dos outros indivíduos. 
Depois do pedido de casamento, Meg decide que precisa tirar uma semana para uma busca de autoconhecimento. Ela mente para seu noivo que vai ir a um seminário de autoconhecimento, mas na verdade vai passar a semana na casa de uma menina de 16 anos que conheceu na noite do casamento da amiga.
Esse é um resumo básico do que acontece no início do filme e o que nos leva ao meu ponto de discussão e o que me levou ao dilema: esse filme tinha muito potencial para abordagem as questões de autoconhecimento, carreira, orientação, crescimento pessoal, mas infelizmente eu vi tudo isso sendo posto de lado pela necessidade de um romance e de um "final feliz" (já discutiremos isso).
Esse texto vai ter spoilers. Aviso.
Megan é uma mulher jovem, inteligente, que toma esse tempo para si, para buscar o que ela quer, para tentar se encontrar e para tentar descobrir qual é seu objetivo. Eu vejo isso sendo uma questão que vai ser presente em uma geração com um nível de escolarização alto, mas não necessariamente um nível de autoconhecimento condizente. Megan tinha as ferramentas, ela só não tinha certeza do que fazer com elas. Todo mundo entra em questionamentos sobre "quem eu sou" e "o que eu quero" e "será que é isso que eu quero para minha vida" e algumas pessoas em uma época, outras noutras e umas resolvem rapidamente, outras não. Não existe certo e errado. É um processo.
Voltando a história: a menina de 16 anos com quem Megan faz amizade e acaba ficando na casa tem um pai e esse pai acaba se tornando o interesse romântico instantâneo. Esse interesse romântico foi que eu achei desnecessário para o seguimento do filme. Podia ser um papel de amizade, podia ser um caso de uma noite. Enfim, Megan trai o noivo com o pai da Annika e temos um drama que desfocaliza das questões de crescimento pessoal.
Após a semana que Megan iria supostamente participar do seminário, ela volta para casa e percebe o que o espectador já tinha percebido desde o início do filme. Que ela estava – como ela mesmo coloca, de uma forma muito interessante – arrastando uma camada que não fazia mais parte de quem ela era. Ela usa a metáfora de ser uma cobra carregando a pele antiga por muito tempo. Essa camada representaria o namorado e o grupo de amigas do ensino médio.

Meg então deixa o noivo e, a minha expectativa era que o filme iria focar seus minutos finais na personagem fechando o ciclo da sua jornada de autoconhecimento e amadurecimento tomando decisões a respeito da sua carreira, arrumando um emprego que ela se sente bem (achei que seria como conselheira na escola, ou algo relacionado com terapia de adolescentes), ou simplesmente ficando bem consigo mesma e encarando esse processo de vez. Mas não, temos Meg indo até o pai de Annika e fechando o ciclo do romance instantâneo, repentino e meio irreal de filmes.
O meu ponto não é contra romance. O meu ponto é com o potencial que esse filme tinha para falar sobre esse período da vida e sobre essa fase que não é incomum e que eu não chamaria de irresponsável e imatura como é chamada na sinopse. Tinha um potencial para mostrar que uma jornada de autoconhecimento de uma mulher não precisa envolver um relacionamento e que - essa parte eu acho importante enfatizar um pouco: o final feliz não precisaria ser necessariamente a mocinha ficando com o mocinho. O final feliz poderia ser a Megan se encontrando em si mesma e se desenvolvendo como mulher independente, suficiente, emponderada e feliz com sua carreira, suas escolhas, seu processo de ser, seus objetivos e sua vida. Teria sido tão feliz e completo em si.
O romance pode existir. Só gostaria que não tivesse sido a conclusão final da jornada de autoconhecimento, amadurecimento e crescimento da personagem principal. O filme não é ruim, é divertido, mas terminou e eu senti que precisava compartilhar tudo isso com alguém.

(Uma pequena observação: termino o texto dizendo que eu senti falta de escrever sem pensar em uma nota e sem pensar em uma avaliação <3)

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