terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Aos 7 e aos 40, João Anzanello Carrascoza

“Aos 7 e aos 40” de João Anzanello Carrascoza apresenta ao leitor um personagem em dois momentos distintos da sua vida: aos sete e aos quarenta anos. Os capítulos apresentados podem ser vistos como recortes da vida do personagem, não existindo um elemento de ligação evidente que junta um ao outro, entretanto, é uma história que fluí exatamente por mostrar a influência de pequenos momentos na vida de uma pessoa.
O personagem nunca chega a receber um nome, mas sabemos que é um homem e somos apresentados a sua família na infância e a sua família na vida adulta. São duas famílias bem distintas, uma está inteira e outra está em processo de separação. Durante o livro inteiro, temos essa visão de quebra entre a visão do personagem menino e do personagem adulto, de como ele achava que seria e como é a vida adulta. De como ele é e como ele era. Em nenhum momento as duas narrativas chegam a se encontrar, mas vários elementos da narrativa da infância podem ser vistos na narrativa adulta. 
O primeiro capítulo, intitulado “depressa” onde a criança discorre sobre querer crescer rapidamente é uma abertura interessante para um livro que termina com esse mesmo personagem, anos à frente, em uma profunda nostalgia e desejo de voltar e reviver sua infância e percebendo que é algo que só é possível acessar através das memórias, que o machucam.
A narrativa de Carrascoza tem uma construção interessante ao se pensar na trajetória de um personagem que o leitor conhece em apenas dois momentos tão espaçados da vida. Contudo, eu sinto que os recortes apresentados pela criança de sete anos são essenciais para entender o adulto de quarenta. Nós vamos conhecendo várias quebras da inocência daquele menino e vários momentos onde ele se viu frente a frente com a realidade e desacreditou na fantasia infantil. Onde conhece a morte, a falha dos pais e sua própria habilidade de falhar.
É um personagem bastante interessante de se acompanhar, e muito disso vem da forma como o autor conduz a história. É um personagem que tem um desenvolvimento e uma jornada de conhecimento sobre a incapacidade de voltar atrás e eu sinto que ele tem uma jornada de olhar para si e para sua história e pensar no significado de tudo que viveu até ali. No indivíduo que ele um dia foi e no indivíduo que ele se tornou e como existe um espaço irrecuperável de tempo entre esses dois momentos apresentados no texto. É um livro narrado de forma simples, com capítulos curtos e objetivos, mas que dizem muito mais do que parecem dizer a primeira vista.
“Naquele dia, ele queria que o menino soubesse,
Como se fosse capaz de entender
Que, abaixo das palavras ditas, há sempre outras,
Silenciadas, que as desmentem” (p. 107)
O autor, principalmente nos capítulos onde o personagem é adulto, usa um estilo de narrativa mais irregular, e uma característica que eu já tinha gostado muito em “Caderno de um Ausente” aparece em “Aos 7 e aos 40” também que é o uso de um toque mais poético na narrativa. O que eu senti que faltou nessa experiência de leitura foi um pouco mais de contato com esse personagem e com sua trajetória pessoal, um pouco mais de profundidade nas reflexões. Senti que foi uma narrativa um pouco corrida demais para proporcionar o tempo necessário de contato e de ambientação. 
“Quando o vazio, de tudo que não podia mais reviver, transbordava” (p. 137)
Como é o meu segundo contato com a obra do autor, comparações acabam acontecendo, e a minha leitura do livro foi influenciada por expectativas bem altas devido a minha leitura anterior de “Caderno de um Ausente”, do mesmo autor. Eu acabei não gostando de de “Aos 7 e aos 40” tanto quanto eu gostei de “Caderno de um Ausente”. O que não torna esse livro ruim, o que acontece é que eu acho difícil algum livro superar o que foi “Caderno de um Ausente” para mim, pessoalmente (que é um livro tão sensacional que até hoje me faltam palavras para escrever sobre, leiam).
“A vida era o que era,
E ele cada vez mais longe de sua fonte,
Mesmo se de volta a ele, como agora – tudo no cami-
Nho é para ficar lá trás, as pessoas carregam só aquilo que deixam de ser, o presente é feito de ausências.” (p. 143)
É uma leitura válida, um texto muito bem escrito e agradável de ler que conta com pontos de reflexão e um personagem muito interessante. Além disso, apresenta esse personagem e essa trajetória de reflexão de uma forma diferente.
 “E embora não pudesse jamais rebobinar a vida,
Eis que ele experimentou,
Outra vez
(doendo)

Uma antiga alegria.” (p. 153)
Editora: Cosac Naify | Páginas: 153 | ISBN: 9788540504370

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