“Aos 7 e aos 40” de
João Anzanello Carrascoza apresenta ao leitor um personagem em dois momentos
distintos da sua vida: aos sete e aos quarenta anos. Os capítulos apresentados
podem ser vistos como recortes da vida do personagem, não existindo um elemento de
ligação evidente que junta um ao outro, entretanto, é uma história que fluí
exatamente por mostrar a influência de pequenos momentos na vida de uma pessoa.
O personagem nunca
chega a receber um nome, mas sabemos que é um homem e somos apresentados a sua
família na infância e a sua família na vida adulta. São duas famílias bem
distintas, uma está inteira e outra está em processo de separação. Durante o
livro inteiro, temos essa visão de quebra entre a visão do personagem menino e
do personagem adulto, de como ele achava que seria e como é a vida adulta. De como ele é e como ele era. Em nenhum momento as duas narrativas chegam a se encontrar, mas vários elementos da narrativa da infância podem ser vistos na narrativa adulta.
O primeiro capítulo,
intitulado “depressa” onde a criança discorre sobre querer crescer rapidamente
é uma abertura interessante para um livro que termina com esse mesmo
personagem, anos à frente, em uma profunda nostalgia e desejo de voltar e
reviver sua infância e percebendo que é algo que só é possível acessar através
das memórias, que o machucam.
A narrativa de
Carrascoza tem uma construção interessante ao se pensar na trajetória de um
personagem que o leitor conhece em apenas dois momentos tão espaçados da vida.
Contudo, eu sinto que os recortes apresentados pela criança de sete anos são
essenciais para entender o adulto de quarenta. Nós vamos conhecendo várias
quebras da inocência daquele menino e vários momentos onde ele se viu frente a
frente com a realidade e desacreditou na fantasia infantil. Onde conhece a
morte, a falha dos pais e sua própria habilidade de falhar.
É um personagem
bastante interessante de se acompanhar, e muito disso vem da forma como o autor
conduz a história. É um personagem que tem um desenvolvimento e uma jornada de
conhecimento sobre a incapacidade de voltar atrás e eu sinto que ele tem uma
jornada de olhar para si e para sua história e pensar no significado de tudo que viveu até ali.
No indivíduo que ele um dia foi e no indivíduo que ele se tornou e como existe
um espaço irrecuperável de tempo entre esses dois momentos apresentados no
texto. É um livro narrado de forma simples, com capítulos curtos e objetivos,
mas que dizem muito mais do que parecem dizer a primeira vista.
“Naquele
dia, ele queria que o menino soubesse,
Como
se fosse capaz de entender
Que,
abaixo das palavras ditas, há sempre outras,
Silenciadas,
que as desmentem” (p. 107)
O autor,
principalmente nos capítulos onde o personagem é adulto, usa um estilo de
narrativa mais irregular, e uma característica que eu já tinha gostado muito em
“Caderno de um Ausente” aparece em “Aos 7 e aos 40” também que é o uso de um
toque mais poético na narrativa. O que eu senti que faltou nessa experiência de
leitura foi um pouco mais de contato com esse personagem e com sua trajetória
pessoal, um pouco mais de profundidade nas reflexões. Senti que foi uma narrativa um pouco corrida demais para proporcionar o tempo necessário de contato e de ambientação.
“Quando
o vazio, de tudo que não podia mais reviver, transbordava” (p. 137)
Como é o meu segundo
contato com a obra do autor, comparações acabam acontecendo, e a minha leitura do livro foi influenciada por expectativas bem altas devido a minha leitura anterior de “Caderno de um Ausente”, do mesmo autor. Eu acabei não gostando de de
“Aos 7 e aos 40” tanto quanto eu gostei de “Caderno de um Ausente”. O que não
torna esse livro ruim, o que acontece é que eu acho difícil algum livro superar
o que foi “Caderno de um Ausente” para mim, pessoalmente (que é um livro tão
sensacional que até hoje me faltam palavras para escrever sobre, leiam).
“A
vida era o que era,
E
ele cada vez mais longe de sua fonte,
Mesmo
se de volta a ele, como agora – tudo no cami-
Nho
é para ficar lá trás, as pessoas carregam só aquilo que deixam de ser, o
presente é feito de ausências.” (p. 143)
É uma leitura válida,
um texto muito bem escrito e agradável de ler que conta com pontos de reflexão e
um personagem muito interessante. Além disso, apresenta esse personagem e essa
trajetória de reflexão de uma forma diferente.
“E embora não pudesse jamais rebobinar a vida,
Eis
que ele experimentou,
Outra
vez
(doendo)
Uma
antiga alegria.” (p. 153)
Editora: Cosac Naify | Páginas: 153 | ISBN: 9788540504370

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