quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

"I Know Why The Caged Bird Sings", Maya Angelou

Maya Angelou é a autora de um poema que mexe comigo toda vez que eu leio e que eu considero de longe um dos meus favoritos. O nome é “Still I Rise” e a partir desse poema, eu fui conhecendo outros e fui me apaixonando por tudo que eu lia da autora. Um outro que tem um espaço especial se chama “Caged Bird” e fez com que “I know why the caged bird sings” chamasse a minha atenção em uma das minhas navegações na internet.
“I know why the caged bird sings” consiste em um livro escrito em prosa e em uma autobiografia sobre a infância e adolescência da autora. É um livro que pode ser visto como um romance de formação, sobre uma menina que é enviada, junto com seu irmão, para morar com a avó no sul dos Estados Unidos, onde cresce e precisa aprender a lidar com todas as questões de desenvolvimento, abandono por parte dos pais e preconceito racial. Podemos acompanhar a história dessa menina enquanto ela tem sua infância e o desenvolvimento de si violados de diversas formas, por diversas pessoas. Podemos ver como ações têm consequências, mas como essa personagem consegue forças para levantar sempre que é derrubada.
Contudo, podemos olhar como um livro de memórias e uma autobiografia. E olhar para esse livro dessa forma, torna a experiência de leitura algo muito mais intimo, real e doloroso. Não é uma personagem criada que está passando por tudo aquilo, é uma pessoa. E só esse simples fato é um grande fato e muda muito a visão do leitor sobre o livro. A escrita poética da autora não descreve apenas momentos criados para dar vida a uma personagem, a escrita poética e maravilhosa da autora é usada para dar vida a si mesma.
Desde que eu li “A Mulher Calada” de Janet Malcom, eu tenho uma visão sobre biografias e autobiografias que sempre torna a minha experiência de leitura muito crítica e muito consciente. Ao ler essa autobiografia ou qualquer texto que eu sei que existe muito mais do que o processo de criação de enredo e personagens, existe todo o processo de recaptação de memórias e revivência de momentos nem sempre positivos, eu acabo olhando o texto com outros olhos. É algo intimo algo privado da autora que ela permitiu que eu tivesse acesso e eu me sinto muito honrada em ter esse acesso. Eu abraço essas memórias que comigo foram compartilhadas por entender que compartilhar memórias e compartilhar histórias de formação, não é algo simples e fácil.
Maya Angelou compartilha essas memórias sobre sua formação e sobre como ela chegou ao lugar aonde chegou de uma forma poética, de uma forma intensa e cativante. Ela sabe mexer com as palavras e ela sabe levar o leitor em uma jornada que vai impactar. Provavelmente a cada leitor de uma forma, mas é um daqueles livros que deixa uma marquinha que quem lê.
É um texto que dispensa comentários sobre enredo ou construção de personagens. Simplesmente por acreditar que o que foi compartilhado foi o necessário e o escolhido. As janelas que tivemos acesso foi as que Maya Angelou escolheu abrir a respeito da sua vida e não foram janelas unicamente felizes e simples de serem tratadas no texto, contudo, é um texto escrito de forma incrível. 

Acompanhamos o crescimento de uma pessoa que veio a escrever um dos meus poemas favoritos e saber a história dela e os momentos em que ela realmente precisou levantar da forma como é descrita no poema, foi bem importante. Temos também uma história que trata bastante sobre racismo, desigualdade e como essas questões afetam o desenvolvimento da subjetividade durante o crescimento de uma pessoa. É um romance de formação, em essência, em seu esqueleto mais cru. E é um dos ótimos romances de formação que eu já li, permitindo o leitor se envolver com o processo do crescer, da infância e do fim de uma infância. Que no caso, foi interrompida cedo demais e eu achei incrível a forma como a autora trabalhou o posterior e como ela se atingiu. 
É um livro que eu recomendo tanto para quem já conhece um pouco da autora como para quem não conhece. Vale muito a pena conhecer. Conheçam Maya Angelou, é fenomenal: 
Recomendo a leitura: Still I Rise | Caged Bird 
Editora: Ballantine Books | Páginas: 304 | ISBN: 9780345514400

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Aos 7 e aos 40, João Anzanello Carrascoza

“Aos 7 e aos 40” de João Anzanello Carrascoza apresenta ao leitor um personagem em dois momentos distintos da sua vida: aos sete e aos quarenta anos. Os capítulos apresentados podem ser vistos como recortes da vida do personagem, não existindo um elemento de ligação evidente que junta um ao outro, entretanto, é uma história que fluí exatamente por mostrar a influência de pequenos momentos na vida de uma pessoa.
O personagem nunca chega a receber um nome, mas sabemos que é um homem e somos apresentados a sua família na infância e a sua família na vida adulta. São duas famílias bem distintas, uma está inteira e outra está em processo de separação. Durante o livro inteiro, temos essa visão de quebra entre a visão do personagem menino e do personagem adulto, de como ele achava que seria e como é a vida adulta. De como ele é e como ele era. Em nenhum momento as duas narrativas chegam a se encontrar, mas vários elementos da narrativa da infância podem ser vistos na narrativa adulta. 
O primeiro capítulo, intitulado “depressa” onde a criança discorre sobre querer crescer rapidamente é uma abertura interessante para um livro que termina com esse mesmo personagem, anos à frente, em uma profunda nostalgia e desejo de voltar e reviver sua infância e percebendo que é algo que só é possível acessar através das memórias, que o machucam.
A narrativa de Carrascoza tem uma construção interessante ao se pensar na trajetória de um personagem que o leitor conhece em apenas dois momentos tão espaçados da vida. Contudo, eu sinto que os recortes apresentados pela criança de sete anos são essenciais para entender o adulto de quarenta. Nós vamos conhecendo várias quebras da inocência daquele menino e vários momentos onde ele se viu frente a frente com a realidade e desacreditou na fantasia infantil. Onde conhece a morte, a falha dos pais e sua própria habilidade de falhar.
É um personagem bastante interessante de se acompanhar, e muito disso vem da forma como o autor conduz a história. É um personagem que tem um desenvolvimento e uma jornada de conhecimento sobre a incapacidade de voltar atrás e eu sinto que ele tem uma jornada de olhar para si e para sua história e pensar no significado de tudo que viveu até ali. No indivíduo que ele um dia foi e no indivíduo que ele se tornou e como existe um espaço irrecuperável de tempo entre esses dois momentos apresentados no texto. É um livro narrado de forma simples, com capítulos curtos e objetivos, mas que dizem muito mais do que parecem dizer a primeira vista.
“Naquele dia, ele queria que o menino soubesse,
Como se fosse capaz de entender
Que, abaixo das palavras ditas, há sempre outras,
Silenciadas, que as desmentem” (p. 107)
O autor, principalmente nos capítulos onde o personagem é adulto, usa um estilo de narrativa mais irregular, e uma característica que eu já tinha gostado muito em “Caderno de um Ausente” aparece em “Aos 7 e aos 40” também que é o uso de um toque mais poético na narrativa. O que eu senti que faltou nessa experiência de leitura foi um pouco mais de contato com esse personagem e com sua trajetória pessoal, um pouco mais de profundidade nas reflexões. Senti que foi uma narrativa um pouco corrida demais para proporcionar o tempo necessário de contato e de ambientação. 
“Quando o vazio, de tudo que não podia mais reviver, transbordava” (p. 137)
Como é o meu segundo contato com a obra do autor, comparações acabam acontecendo, e a minha leitura do livro foi influenciada por expectativas bem altas devido a minha leitura anterior de “Caderno de um Ausente”, do mesmo autor. Eu acabei não gostando de de “Aos 7 e aos 40” tanto quanto eu gostei de “Caderno de um Ausente”. O que não torna esse livro ruim, o que acontece é que eu acho difícil algum livro superar o que foi “Caderno de um Ausente” para mim, pessoalmente (que é um livro tão sensacional que até hoje me faltam palavras para escrever sobre, leiam).
“A vida era o que era,
E ele cada vez mais longe de sua fonte,
Mesmo se de volta a ele, como agora – tudo no cami-
Nho é para ficar lá trás, as pessoas carregam só aquilo que deixam de ser, o presente é feito de ausências.” (p. 143)
É uma leitura válida, um texto muito bem escrito e agradável de ler que conta com pontos de reflexão e um personagem muito interessante. Além disso, apresenta esse personagem e essa trajetória de reflexão de uma forma diferente.
 “E embora não pudesse jamais rebobinar a vida,
Eis que ele experimentou,
Outra vez
(doendo)

Uma antiga alegria.” (p. 153)
Editora: Cosac Naify | Páginas: 153 | ISBN: 9788540504370

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

The Lover's Dictionary, David Levithan (sobre releituras e crescimento)

“The Lover’s Dictionary” tem um formato diferente da maioria dos livros, um formato de dicionário, como o próprio nome informa. Em todas as páginas temos uma palavra e um trecho que faz referência ao seu significado. Todos os trechos do livro juntos, de forma não linear – já que eles estão organizados em ordem alfabética – formam a história do relacionamento do casal protagonista em questão.
Casal protagonista que não tem nome e não tem características muito específicas, dando uma grande liberdade para o leitor completar e é bem fácil se ver nas linhas do texto. Os trechos são em sua maioria bem breves, mas conseguem delinear o tom e os acontecimentos do relacionamento de uma forma muito honesta.
O autor aborda acontecimentos grandes e acontecimentos pequenos, aqueles que têm mais e menos relevância dentro de um relacionamento, entretanto, no fim, acabam moldando a essência do casal e o que eles representam. Levithan apresenta um conjunto de entradas de representa o amor e um relacionamento de uma forma muito íntegra, interessante e nada clichê. É um livro que por mais curto e rápido que seja, é um livro completo. E por mais que tenha uma linguagem simples, é um livro que trata sobre relacionamentos e todo mundo sabe que isso nunca é simples. Esse paradoxo é muito bem trabalhado pelo autor. 
Eu resolvi reler esse livro porque estava em um momento difícil com outro livro. Sabe, quando o relacionamento está complicado, mas você não está pronta para simplesmente desistir porque você sente que o livro ainda tem potencial? Eu normalmente não desisto dos livros sem tentar tudo que eu posso, mas nesse caso eu precisava de um tempo longe para ver se depois eu volto com outros olhos.
Bem, o meu primeiro contato com esse livro foi em setembro de 2013, e ele me conquistou muito na época. Eu comecei a releitura consciente que o livro tinha conquistado uma Gabriele de dezessete anos recém-feitos, estudante do terceiro ano do Ensino Médio, que nunca tinha se apaixonado de verdade e nunca tinha tido a experiência de um relacionamento de verdade. Ela tinha lido o livro, marcado várias coisas e adorado.
A Gabriele que estava se preparando para reler o livro, em dezembro de 2015, tem dezenove anos, terminou o segundo ano da faculdade, já se apaixonou, já entrou em um relacionamento e recentemente viu esse relacionamento terminando. Não é a mesma pessoa, mas felizmente posso dizer que continuo adorando o livro.
Foi interessante reencontrar a Gabriele de 2013 nas páginas do livro. Ela tinha deixado várias marcas e foi interessante ver o que ela tinha considerado relevante na época e perceber que não eram as mesmas passagens e páginas que eu estava considerando relevante agora. Eu não tirei as minhas marcações de 2013, apenas adicionei marcações de cor diferente. Eu não apaguei o que tinha sublinhado na época, mas eu sublinhei novas coisas e resolvi conversar com a eu do passado respondendo porque eu discordava de algumas coisas que ela tinha concordado antes, escrevendo mensagens. Eu conversei comigo, conversei com o autor, conversei com todo mundo. E quero muito reler esse livro daqui uns anos e ver o que a Gabriele de dois mil e alguma coisa pensa sobre meus comentários, espero que ela responda também. 
Eu tornei o livro tão meu. É um livro que, agora, não posso mais emprestar a ninguém porque virou um diário pessoal de como minha visão sobre relacionamentos e sobre relações pessoais mudou em dois anos. Mas é interessante me colocar nas margens. É um livro que agora, reflete meu crescimento como pessoa ao longo desses dois anos turbulentos.
Releituras nos permitem entrar em contato com nossos eus do passado e conversar com eles de formas indiretas. A gente ouve o que eles tem a dizer, podemos responder, eles só não podem responder de volta. O que eu pensava na época e hoje penso diferente? Porque hoje eu penso diferente? O que mudou em mim, já que o livro é exatamente o mesmo?
Acredito que nem todos os livros são passiveis proporcionar momentos de autorreflexão assim, mas existem alguns na história de todo leitor que merecem ser lidos de tempos em tempos. Talvez eu passe a odiar um livro que um dia eu amei, mas eu quero saber o que mudou tanto em mim que ocasionou uma mudança tão brusca assim. É algo positivo? Não?
David Levithan tem uma linguagem simples, direta e consegue em pequenos trechos, dar vida a vários sentimentos que existem em um relacionamento. O vocabulário dos trechos, no inglês é bem simples e fácil de entender, mas as palavras escolhidas como títulos proporcionaram um grande aumento no meu vocabulário (o que é o objetivo de todo dicionário, não?). É um livro bem honesto sobre pessoas, relacionamentos e como tem altos e baixos e como nunca contamos as histórias em uma ordem muito correta. 
Editora: Farra, Straus and Giroux | Páginas: 211 | ISBN: 9780374193683
(não tem edição em português) 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre jornadas de amadurecimento e autoconhecimento (Filme "Encalhados")

Quando uma jovem mulher irresponsável e imatura (Keira Knightley) recebe um pedido de casamento de seu namorado, ela entra em crise. A primeira ideia é fingir que precisa fazer um retiro em busca de auto conhecimento profissional, mas de fato ela se esconde na casa da sua nova melhor amiga, a adolescente Annika (Chloe Grace Moretz). (trailer)
Faz muito tempo que eu não me sento para escrever nada que não tenha fins acadêmicos e que nenhum professor vá validar e criticar a minha argumentação, minha escolha de fontes e minha forma de desenvolver ideias. Acredito que a quantidade de vezes que eu precisei sentar e escrever com esses fins, foi o grande motivo que me afastou das resenhas e do blog e da escrita em geral. Contudo, em um dia incomum, eu resolvi fazer uma maratona de filmes e é isso que me trouxe aqui de novo.
Quem me conhece sabe que eu não tenho o costume de assistir filmes, eu não gosto tanto como a maioria das pessoas. Mas eu resolvi assistir alguns e como eu normalmente gosto dos filmes que a Keira Knightley aparece, acabei assistindo a comédia romântica Encalhados (Laggies, 2014)
Eu nunca chego em comédias românticas com muitas expectativas, sendo uma pessoa que já não gosta muito de filmes, esse gênero é ainda mais difícil de me agradar. Contudo, algo nesse filme fez com que eu pela primeira vez em meses abrisse um documento do word e escrevesse, então vamos direto ao ponto.
O filme vai contar a história de Megan, uma mulher com graduação e mestrado em terapia de famílias e casais, mas que acabou se sentindo uma farsa ao trabalhar com pessoas reais ao levar a teoria para prática. Então Megan se vê nos seus vinte e poucos anos, sem emprego, em um relacionamento confortável com seu namorado do ensino médio e com o seu mesmo grupo de amigos da época.
Ela sabe que precisa se encontrar e buscar uma orientação, mas ela se vê empacada, sem conseguir ver caminhos possíveis para seguir. Durante o casamento de uma de suas melhores amigas da época do ensino médio, seu namorado acaba propondo o casamento e é quando ela entra em pânico e sai no meio da festa para dar uma volta.
É nesse grupo de amigas, que depois de tanto tempo é ainda tão unido, que Meg tem dificuldades de perceber que não se sente mais parte. Que não se sente mais pertencente, que ela não está mais no mesmo ritmo e no mesmo momento de vida dos outros indivíduos. 
Depois do pedido de casamento, Meg decide que precisa tirar uma semana para uma busca de autoconhecimento. Ela mente para seu noivo que vai ir a um seminário de autoconhecimento, mas na verdade vai passar a semana na casa de uma menina de 16 anos que conheceu na noite do casamento da amiga.
Esse é um resumo básico do que acontece no início do filme e o que nos leva ao meu ponto de discussão e o que me levou ao dilema: esse filme tinha muito potencial para abordagem as questões de autoconhecimento, carreira, orientação, crescimento pessoal, mas infelizmente eu vi tudo isso sendo posto de lado pela necessidade de um romance e de um "final feliz" (já discutiremos isso).
Esse texto vai ter spoilers. Aviso.
Megan é uma mulher jovem, inteligente, que toma esse tempo para si, para buscar o que ela quer, para tentar se encontrar e para tentar descobrir qual é seu objetivo. Eu vejo isso sendo uma questão que vai ser presente em uma geração com um nível de escolarização alto, mas não necessariamente um nível de autoconhecimento condizente. Megan tinha as ferramentas, ela só não tinha certeza do que fazer com elas. Todo mundo entra em questionamentos sobre "quem eu sou" e "o que eu quero" e "será que é isso que eu quero para minha vida" e algumas pessoas em uma época, outras noutras e umas resolvem rapidamente, outras não. Não existe certo e errado. É um processo.
Voltando a história: a menina de 16 anos com quem Megan faz amizade e acaba ficando na casa tem um pai e esse pai acaba se tornando o interesse romântico instantâneo. Esse interesse romântico foi que eu achei desnecessário para o seguimento do filme. Podia ser um papel de amizade, podia ser um caso de uma noite. Enfim, Megan trai o noivo com o pai da Annika e temos um drama que desfocaliza das questões de crescimento pessoal.
Após a semana que Megan iria supostamente participar do seminário, ela volta para casa e percebe o que o espectador já tinha percebido desde o início do filme. Que ela estava – como ela mesmo coloca, de uma forma muito interessante – arrastando uma camada que não fazia mais parte de quem ela era. Ela usa a metáfora de ser uma cobra carregando a pele antiga por muito tempo. Essa camada representaria o namorado e o grupo de amigas do ensino médio.

Meg então deixa o noivo e, a minha expectativa era que o filme iria focar seus minutos finais na personagem fechando o ciclo da sua jornada de autoconhecimento e amadurecimento tomando decisões a respeito da sua carreira, arrumando um emprego que ela se sente bem (achei que seria como conselheira na escola, ou algo relacionado com terapia de adolescentes), ou simplesmente ficando bem consigo mesma e encarando esse processo de vez. Mas não, temos Meg indo até o pai de Annika e fechando o ciclo do romance instantâneo, repentino e meio irreal de filmes.
O meu ponto não é contra romance. O meu ponto é com o potencial que esse filme tinha para falar sobre esse período da vida e sobre essa fase que não é incomum e que eu não chamaria de irresponsável e imatura como é chamada na sinopse. Tinha um potencial para mostrar que uma jornada de autoconhecimento de uma mulher não precisa envolver um relacionamento e que - essa parte eu acho importante enfatizar um pouco: o final feliz não precisaria ser necessariamente a mocinha ficando com o mocinho. O final feliz poderia ser a Megan se encontrando em si mesma e se desenvolvendo como mulher independente, suficiente, emponderada e feliz com sua carreira, suas escolhas, seu processo de ser, seus objetivos e sua vida. Teria sido tão feliz e completo em si.
O romance pode existir. Só gostaria que não tivesse sido a conclusão final da jornada de autoconhecimento, amadurecimento e crescimento da personagem principal. O filme não é ruim, é divertido, mas terminou e eu senti que precisava compartilhar tudo isso com alguém.

(Uma pequena observação: termino o texto dizendo que eu senti falta de escrever sem pensar em uma nota e sem pensar em uma avaliação <3)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Festa no Covil, Juan Pablo Villalobos

“Festa no Covil” é um livro inocentemente destruidor. Como todos os livros narrados por crianças em um ambiente pesado são. Juan Pablo Villalobos apresenta ao leitor a vida do menino Tochtli, ele é filho de um traficante do México e vive afastado de tudo e de todos. Na sua mente, ele vive em um castelo, em uma fortaleza no meio do nada e acaba preenchendo os espaços com histórias, palavras exóticas e chapéus.

Tochtli tem uma vida grandiosa, mas também uma vida privada. Mesmo na própria casa, existem quartos proibidos e conversas que ele não entende muito bem. Ele é privado de conhecer pessoas, principalmente outros meninos da sua idade, já que é escolarizado em casa.

“E além do dinheiro temos as joias e os tesouros. E muitos cofres com senhas secretas. É por isso que eu conheço poucas pessoas, treze ou catorze. Porque se eu conhecesse mais iam nos roubar o dinheiro ou passar a perna na gente como fizeram com o Mazatzin”.

Ao mesmo tempo em que Tochtli consegue contar quantas pessoas conhece, ele conta quantos cadáveres conhece também. E a visão que o menino tem do que é morrer e o que a morte significa quebra um pouco sua fala inocente que perdura durante a narrativa e mostra que existe um pouco de entendimento de uma realidade cruel.

“Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar”.

A história tem 82 páginas, o enredo principal é a busca de Tochtli por hipopótamos anões da Libéria. Esse acaba sendo o enredo principal devido ao fato do livro ser narrado por Tochtli. Como é dito no posfácio do livro, essa é a história que ele imagina estar contando. Mas uma história nunca conta apenas o que a gente imagina estar contando e o plano de fundo da história de Tochtli é muito maior do que a história dele em si. E ele acaba, entre falas sobre sua coleção de chapéus e seu desejo de completar seu zoológico, dando acesso a esse ambiente solitário e difícil que ele está inocentemente inserido.

Juan Pablo Villalobos tem uma narrativa simples, mas compõe uma ambientação muito dinâmica e interessante. É uma leitura curta, mas muito completa e recomendável. 
Editora: Companhia das Letras | Páginas: 88 | ISBN: 9788535920260

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O jornalista e o assassino, Janet Malcolm

Além de escritora, Janet Malcolm é jornalista, o que lhe da a legitimidade necessária para apontar o dedo para a própria profissão. Em seu terceiro livro-reportagem, “O Jornalista e o assassino”, Malcolm tece uma série de reflexões acerca dos dilemas da ética jornalística a partir do caso de Jeffrey MacDonald e Joe McGinniss - uma problemática relação jornalista-personagem que teve seu desenrolar nos tribunais norte-americanos. MacDonald, um médico acusado de assassinar a própria família, pede para que o jornalista McGinniss escreva um livro a seu respeito, com a intenção primária de arrecadar dinheiro para continuar com sua defesa jurídica. Durante quatro anos ambos conviveram intensamente a ponto de criar uma relação de amizade a qual o jornalista traiu ao publicar um livro que retratava seu personagem, e suposto amigo, como um assassino psicótico.

O caso permeia temas como a liberdade de imprensa e a imoralidade de certos artifícios jornalísticos, especialmente no âmbito do jornalismo extensivo. É uma temática polêmica. Causa incômodo. A cada página, novos questionamentos a respeito da “moralidade indefensável" da profissão são levantados. Sua narrativa, contudo, é tão fluída que mal notamos que, aos poucos, caímos sob a influência de sua opinião, bem dissolvida no texto - a condenação da atitude tida como imoral do jornalista McGinniss, o qual pode servir de alegoria para a profissão em si.

"Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável” (página 4) 

A perspectiva da autora não basta. Ao terminar a leitura e criar certo distanciamento da obra, ela continua a incomodar. O impasse moral da relação jornalista-fonte grita na mente do leitor: existem limites para essa relação ou tudo vale em nome de uma suposta verdade, posto que o pacto do jornalista é com o leitor? Apesar de escrito em 1990, o questionamento continua sendo válido, tal qual a leitura de “O jornalista e o assassino”.

Editora: Companhia das Letras | Páginas: 176 | ISBN: 9788535918342

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Olá

Diz olá ao mundo, Eutiqueta. 

Conta aos teus leitores tua origem. Fala de Drummond, do consumismo nas palavras de Drummond, que diz ser coisa e não pessoa. Eu, etiqueta. Eutiqueta. A junção foi fruto do mau gosto de duas moças de 18 anos separadas por 750 quilômetros e dois cliques. Desde os 14 já eivavam a internet com seus comentários sobre os mocinhos feitos de palavras que permeavam seus sonhos. Foi nesse território lúdico de html e javascript que tropeçaram em si mesmas e descobriram uma a outra. Mas o tempo enfraqueceu o grito cibernético de ambas que, anos mais tarde, depois do encontro em território mineral, orgânico, real, uniram suas vozes em um único som chamado Eutiqueta. Assumidamente um eu coisa, a ideia é voltar a ser pessoa. Conhecer alguma poesia, dar-se conta do sentimento do mundo. E o meio é a palavra - de outrem ou delas próprias. Dessa confluência eclode Eutiqueta, blog de resenhas, devaneios e ensaios.

Com o descompromisso de quem carrega um coração compassivo mas errante, peço (eu, narrador ubíquo deste post) que nos dêem (que me dêem) as boas vindas!

Gabriele e Monique
eutiqueta@gmail.com